sexta 18 abril 2014 . 04:51 . Atualizado às 03:00

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A afirmação é do presidente da Associação dos Deficientes Físicos do Amazonas (Adefa), Isaac Benayon, futo de um levantamento feito pela entidade nos últimos anos.

[ i ] Levantamento feito pela Adefa aponta que pouco se evoluiu no Estado com relação a políticas públicas para portadores de deficiência. Ricardo Oliveira/Acervo-DA Levantamento feito pela Adefa aponta que pouco se evoluiu no Estado com relação a políticas públicas para portadores de deficiência.

Manaus - Nenhuma grande mudança – seja de atitude, por parte da população em geral, ou de infra-estrutura física para a acessibilidade, por parte do poder público – pôde ser sentida nos últimos 30 anos pelas pessoas que possuem algum tipo de deficiência física no Estado do Amazonas. A afirmação é do presidente da Associação dos Deficientes Físicos do Amazonas (Adefa), Isaac Benayon, e faz parte de uma espécie de balanço de uma publicação que a instituição pretende lançar ainda este ano.

A obra, provisoriamente intitulada “Uma história que merece ser contada”, trata da luta do movimento das pessoas com deficiência física no Estado, desde os anos 80. “Há 30 anos discutiam-se os mesmos problemas que são discutidos hoje, o que mostra que pouca coisa mudou. Mas a maior barreira ainda é a social, a aceitação por parte da sociedade. Ainda há muito preconceito”, diz o presidente, que também é deficiente físico e tem de usar uma cadeira de rodas para se locomover.

Para ele, a cidade de Manaus – que contava, até o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2000, com quase 228 mil deficientes físicos – não está preparada para o público portador de deficiência. “Isso nós estamos falando de pessoas cegas, as que usam muletas e os cadeirantes. A cidade impede o nosso direito constitucional de ir e vir”, explica Benayon.

Dados da própria Adefa mostram que, apesar de alguns avanços, como a política de cotas para deficientes físicos nas empresas privadas, criada pela Lei 8.213/1991, ainda há problemas em alocar este público no mercado de trabalho.

Em 2010, 1.285 pessoas portadoras de necessidades especiais foram encaminhadas pela Adefa a 233 empresas do Distrito Industrial mas, de acordo com o presidente da entidade, há casos em que as empresas não fazem as contratações – apesar de as relatarem ao Ministério do Trabalho, do Governo Federal, como se elas tivessem sido efetivadas.

“Todos os meses nós fazemos os encaminhamentos e acompanhamos cada caso para saber se a empresa não vai mentir depois”, garante o presidente Isaac Benayon. Além dos encaminhamentos, o associação também atua no sentido de capacitar as pessoas com necessidades especiais ao mercado. “Ano passado, foram realizados 143 cursos de capacitação”, diz.

Secretaria de Estado

Ao ser diplomado como governador do Amazonas, no último dia 17 de dezembro, Omar Aziz (PMN) anunciou a criação de uma secretaria especial voltada ao público portador de deficiência física. O anúncio, porém, não surpreendeu ao presidente da Adefa e a seus associados.

“Em 2008, quando ele (Omar) foi candidato a prefeito, nós apresentamos todas as dificuldades sentidas pelos deficientes físicos no Amazonas, assim como fizemos para todos os prefeituráveis. Logo o anúncio não nos surpreendeu. Esperamos que esta secretaria possa agir no sentido de integrar as pessoas com necessidades especiais à sociedade”, diz Isaac Benayon, lembrando que a entidade, até o momento, ainda não foi acionada para conversar com o governo estadual sobre a nova pasta.

Necessidades especiais

Apesar de não se referirem a um longo período de tempo como o presidente da Adefa, algumas pessoas portadoras de necessidades especiais concordam que pouca coisa mudou. Atualmente trabalhando como telefonista do Ministério Público Estadual (MPE-AM), a assistente social Hortência Nery, de 29 anos, diz que Manaus não “foi feita” para pessoas com deficiência física. Cega desde os dois anos de idade por conta de uma catarata, ela diz que apenas o lado “humano” da questão apresentou melhorias.

“Hoje há um apelo maior para as minorias. As pessoas estão mais sensibilizadas e receptivas ao público portador de necessidades especiais. Hoje, nem todos olham para o deficiente físico com piedade, mas com respeito. É claro que ainda há muito preconceito, sobretudo no mercado de trabalho”, diz. Hortência conta que alguns de seus amigos também portadores de deficiência, apesar de estarem no mercado de trabalho, não se sentem valorizados e sofrem de preconceito “velado”.

“Sei de casos de deficientes que apenas batem o ponto e passam o dia sem fazer absolutamente nada no emprego. A empresa prefere fechar os olhos, fazer de conta que aquela pessoa não está lá, deixá-la quietinha, sem procurar incluí-la. É mais fácil fazer isso que dar respeito e cidadania”, opina.

Funcionário da Adefa no cargo de diretor finaceiro, Moisés Sarmento, de 56 anos, tem deficiência em uma das pernas, por conta da paralisia infantil, e tem que se locomover com apoio de muletas. Para ele, ao grande problema em Manaus está no transporte coletivo, nas vias públicas – que não estão preparados para atender a esse público – e, ainda, a atitude de algumas pessoas.

“Temos problemas todos os dias. No ônibus, há quem não nos conceda a cadeira para sentar”, diz ele, que mora no bairro da Compensa (zona Oeste) e tem que pegar dois ônibus para chegar à sede da Adefa, no Distrito Industrial.

Superação

Há quem consiga se destacar em algumas atividades, apesar das limitações físicas. É o caso do atleta José Maria Santana da Silva, que, apesar de ser cadeirante desde os oito anos de idade por conta da paralisia infantil, pratica alterofilismo há dez anos. José é penta campeão brasileiro na categoria e chegou a quebrar o recorde nacional da modalidade ano passado.

“Esse ano eu também quero disputar o nacional e vou me preparar para a próxima Paraolimpíada” conta o atleta. Ele diz que o esporte mudou a sua vida. “O esporte abriu as portas para eu desenvolver o meu corpo e o meu trato com as pessoas”. Sobre a sua realidade cotidiana, ele lamenta: “Na rua, falta ainda muito respeito. Tanto dos pedestres quanto dos motoristas”, relata.

Outros exemplos são dos nadadores Aljair Macedo, de 32 anos, Simplício Augusto, de 20, e Valéria Santarém Lira, de apenas 17 anos – todos atletas do clube Adefa/Rio Negro. Em dezembro passado, eles trouxeram sete medalhas para o Amazonas na última Etapa Nacional do Circuito Loterias Caixa Brasil Paraolímpico de Atletismo, Halterofilismo e Natação, em Porto Alegre (RS).

Luta por direitos

Quando foi oficialmente fundada, no dia 29 de julho de 1980, a Adefa contava com a participação de 51 pessoas e seu primeiro presidente, Manoel Marçal de Araújo, era tetraplégico. Nem todos os sócio-fundadores, porém, eram portadores de necessidades especiais. Hoje, com 10.252 associados, a entidade luta, além dos direitos dos deficientes físicos, pela autonomia.

“Houve muita luta em todos esses anos. Esperamos que a sociedade possa mudar de atitude e entender que somos parte dela. Mas é fundamental entender que a Adefa não é um grupo de coitadinhos que esperam pelo poder público, mas um grupo de cidadãos organizados em busca de seus direitos”, diz o Isaac Benayon.

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