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RSSQueimadas na Amazônia afetam pulmões de crianças
Partículas penetram profundamente nos pulmões e atingem corrente sanguínea, provocando dificuldades na expiração conforme os níveis de poluição
RIO DE JANEIRO – Estudo interdisciplinar de avaliação dos efeitos nocivos das queimadas para a saúde humana na Amazônia constatou que, em algumas áreas criticas do chamado “arco do desmatamento”, crianças e adolescentes entre 6 e 16 anos tiveram a sua capacidade pulmonar reduzida devido à intensificação de material particulado na atmosfera, principalmente a fumaça.
De acordo com os pesquisadores, as partículas são capazes de penetrar profundamente nos pulmões e atingir a corrente sanguínea, provocando dificuldades na expiração conforme os níveis de poluição. Os principais resultados mostram que para cada aumento de 10 ug/m3 de material particulado fino há uma redução de até 0,34 litros por minuto de ar expirado.
O projeto, “Avaliação dos efeitos das queimadas para a saúde humana na área do arco do desmatamento: a construção de indicadores para a gestão integrada de saúde e ambiente”, é liderado pela Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio de Janeiro, em parceria com instituições de ensino e pesquisa da Amazônia e de outras regiões.
O “arco do desmatamento” é onde ocorre a maior parte das queimadas na Amazônia. Compreende uma área que vai do oeste do Maranhão ao leste e sul do Pará, norte do Tocantins, e em quase todo o Mato Grosso, Rondônia, Acre, até o sul do Amazonas. Os níveis de poluição variam de ano para ano e em cada estado, sobretudo no período de seca, quando os focos são mais freqüentes e intensos.
Em certos meses, a poluição na atmosfera é tanta que há interdição dos aeroportos regionais. Segundo a bióloga da Ensp, Sandra Hacon, coordenadora do projeto, ainda que haja uma variação dos níveis de poluentes de um município para outro, “sem dúvida, nessa área, costumam ser muito mais elevados do que em grandes regiões metropolitanas do Brasil”.
As pesquisas tiveram início em 2006, com as populações de Alta Floresta e Tangará da Serra, no Mato Grosso. Esses municípios foram definidos como prioritários em razão de o estado ter sido o campeão em números de focos de queimadas na região, nos últimos anos, conforme dados de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Também foi verificado o aumento de até 7% no número de consultas ambulatoriais e de internações hospitalares por doenças respiratórias de crianças e idosos. Sandra Hacon diz que, antes mesmo de a pesquisa começar, Alta Floresta e Tangará da Serra já registravam as maiores taxas de internação e de mortalidade por doenças do pulmão em crianças menores de 5 anos de idade.
Nos dois municípios, os pesquisadores realizaram o que chamam de “inquérito de asma” para todas as crianças de 6 e 7 anos e adolescentes de13 e 14 anos. Houve prevalência de asma acima da média tanto em Alta Floresta (em 21%) quanto em Tangará da Serra (26%). “Esses percentuais são também mais elevados do que os verificados em Cuiabá, Manaus e Belém em estudos prévios”, afirma Sandra Hacon.
A exposição humana não ocorre necessariamente no local das queimadas, quase sempre afastado da área urbana. As altas temperaturas provocadas pela combustão e a ocorrência de circulações de ar associadas às nuvens favorecem o movimento convectivo ascendente da massa de ar e podem ser responsáveis pela elevação dos poluentes gerados na queima de biomassa até a troposfera.
“Da troposfera, podem ser transportados para regiões distantes das fontes emissoras, chegando às áreas urbanas”, explica a pesquisadora. Este transporte resulta em uma distribuição espacial de fumaça sobre uma extensa área, que vai influenciar a exposição humana, principalmente os grupos mais vulneráveis (crianças e idosos).
Complexidade
A Amazônia abriga um dos ecossistemas mais ricos e complexo do planeta. Estudar efeitos da poluição atmosférica na região implica lidar com essa complexidade nas áreas ambiental, social e cultural. “A sazonalidade da região dificulta o monitoramento continuo da qualidade do ar e conseqüentemente influencia na obtenção de dados dos poluentes. O mesmo acontece com os dados meteorológicos contínuos necessários para as análises”, diz Sandra Hacon.
Segundo ela, outra dificuldade está nas características das áreas estudadas. “A agregação dos habitantes de vários municípios nem sempre é adequada, porque os níveis de poluição são distintos de uma localidade para outra. Esta é uma das razões pela qual ainda não foram analisados os efeitos da exposição em relação à mortalidade. Mas o grupo vem trabalhando para lidar com esta dificuldade”.
Redes de pesquisa
A pesquisa coordenada por Sandra Hacon integra a componente “Saúde” na Rede Milênio, um mega projeto associado ao programa de Grande Escala da Biosfera-Atomosfera na Amazônia (LBA). A partir de 2008, alem do Mato Grosso, também foram realizados estudos em Rio Branco, no Acre, com crianças e adolescentes entre 6 e 16 anos.
Em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), foi feito o monitoramento do impacto de ozônio e de PM 2.5 (material particulado fino, por exemplo, fumaças de queimadas ou ônibus) na saúde dessa população. Os dados ainda estão em análise, mas Sandra Hacon já comemora os resultados da primeira etapa do projeto, no Mato Grosso.
Segundo a bióloga, os dados contribuíram para que a Fiocruz passasse a integrar a Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas (Rede Clima), e liderasse a sub-rede temática Mudanças Climáticas e Saúde, coordenada por ela e por Christovam Barcellos. A rede reúne pesquisas sobre os diversos aspectos das mudanças climáticas e pretende oferecer subsídios a gestores públicos.
Em 2010, com o subprojeto “Avaliação dos efeitos da queima de biomassa na região do arco do desmatamento à saúde humana”, a equipe da Fiocruz passou a integrar o INCT Mudanças Climáticas, aprovado recentemente pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e coordenado pelo Inpe. O objetivo é traçar um perfil epidemiológico das doenças respiratórias e cardiovasculares na cidade.
Instituições parceiras
Para a execução das pesquisas, a Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) conta com a parceria das universidades federais de Rondônia (Unir) e do Acre (Ufac), e as estaduais de São Paulo (USP) e de Mato Grosso (Unemat). A Fundação Ecológica Cristalino (FEC), de Alta Floresta, o Instituto de Tecnologia de Pernambuco – ITEC, e o CPTEC/ Inpe também se associaram ao projeto.
Dentre as agencias financiadores, estão, além do MCT, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e as fundações de amparo a pesquisa dos estados de Minas Gerais (Fapemig), Rio de Janeiro (Faperj) e São Paulo (Fapesp).
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