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RSSIPCC deve ser mais transparente, diz comissão do IAC
A pedido da ONU, foi feita uma avaliação dos procedimentos do Painel na elaboração de seus relatórios. Comissão também sugere inclusão de membros externos.
Manaus - O Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC) deve passar por uma reforma na sua administração e nos seus métodos de pesquisa, para manter a credibilidade sobre seus relatórios de avaliação do clima do planeta. Esta foi a principal conclusão do relatório “Avaliações das Mudanças Climáticas: revisão dos processos e procedimentos do IPCC”, elaborado pelo InterAcademy Council (IAC) e divulgado nesta segunda-feira, pela Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.
De acordo com o relatório, a falta de liderança no painel, de controle sobre as informações usadas e de procedimentos científicos adequados são os principais problemas a serem corrigidos. Boa parte das críticas do IAC recaiu sobre o indiano Rajendra Pachauri e sua administração “caótica”. O IPCC passou a ser contestado devido às previsões sobre as geleiras do Himalaia, fundamentadas numa única fonte, um relatório de 2005 da ONG WWF, que, por sua vez, cita um artigo de 1999 na "New Scientist".
Segundo o IPCC, as geleiras no Himalaia estariam vazando mais rapidamente que qualquer outra parte do mundo e teriam alta probabilidade de desaparecerem em 2035, caso o atual padrão se mantivesse. Esses dados foram apontados no último relatório do painel, divulgado em 2007. Mas, antes de o documento vir a público, um grupo decientistas já contestava as previsões para os glaciais do Himalaia. Na opinião dos membros do IAC, os alertas foram desconsiderados pelo IPCC.
Outra crítica apontada pelo IAC foi a demora do IPCC em admitir o erro na questão do Himalaia. Segundo o relatório, as respostas foram “lentas e inadequadas”. Demorou mais de um mês para que o painel emitisse um comunicado official, sem, contudo, explicar o ocorrido. “O IPCC apenas lamentou o erro”, diz o texto. Uma sugestão do IAC é que se crie um comitê executivo para o IPCC, com uma liderança reconhecida, e que o mandato seja limitado a seis anos – atualmente, o administrador pode ficar até 12 anos.
O mandato de Pachauri no IPCC termina em 2014, mas os membros do IAC esperam que ele renuncie, para que possa ser iniciada uma “reforma”. De acordo com a ONU, a decisão ficará a cargo dos governos, que, em outubro, se reunirão para definir se o indiano continuará ou não à frente do painel. O relatório do IAC também sugere que o IPCC amplie a participação dos membros, incluindo pesquisadores que de fora da área de ciência do clima.
Além disso, o IAC recomenda que haja transparência sobre todos os cientistas do painel, indicando onde trabalham, para evitar possíveis conflitos de interesse. “O comitê enfatizou o debate e a valorização de ideias contraditórias”, declarou à Agência Faspep o brasileiro Carlos Henrique de Brito Cruz, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos 12 membros que avaliaram o IPCC. Para ele, o relatório do IAC não coloca em xeque a credibilidade dos relatórios produzidos até agora.
O uso da chamada “literatura cinza” (trabalhos não publicados em revistas científicas com processo de revisão bem aceito) a partir de fontes inéditas ou não-peer-reviewed tem sido controverso, embora muitas vezes essas fontes de informações e dados são relevantes e adequadas para inclusão nos relatórios de avaliação. Os problemas ocorrem porque os autores não seguem as diretrizes do IPCC para avaliar essas fontes e porque as próprias orientações são vagas, segundo apontou o comitê.
“É recomendável que essas orientações sejam tornadas mais específicas – incluindo a adição de orientações sobre quais os tipos de literatura são inaceitáveis – e rigorosamente aplicadas para garantir que inéditos e literatura não revisada estejam devidamente sinalizado”, diz o documento.
O trabalho do IAC foi coordenado pelo economista Harold Shapiro, ex-reitor das universidades Princeton e de Michigan, nos Estados Unidos. A vice-presidente foi Roseanne Diab, diretora da Academia de Ciências da África do Sul. Também integraram o comitê Mario Molina, ganhador do Nobel de Química em 1995, Maureen Cropper, ex-economista chefe do Banco Mundial, e Peter Williams, vice-presidente da Royal Society. Todos foram indicados pelas academias de ciência que fazem parte da IAC.
A elaboração do próximo relatório do IPCC começa ser discutida no período de de 8 a 11 de novembro, em Kuming, na China. No total, o painel contará com 830 cientistas de todo o mundo, sendo quase um terço oriundos de países em desenvolvimento, segundo informou a ONU. Entre os autores, 25 são brasileiros. O novo relatório será divulgado entre 2013 e 2014.
“IPCC Brasileiro”
A presidente do Comitê Científico do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), Suzana Kahn, determinou nesta terça-feira que o relatório do IAC fosse encaminhado a todos os cientistas que integram os grupos do “IPCC brasileiro”, a fim de que tomem ciência do resultado da avaliação. A entidade está elaborando uma proposta sobre os "Procedimentos do PBMC" que deverá ser apresentada na primeira quinzena de setembro.
Para Kahn, a credibilidade e a seriedade dos autores do IPCC na elaboração dos relatórios não está em questão. A conclusão principal a que chegou o IPCC – de que o clima no planeta está mudando e que as temperaturas estão aumentando principalmente em decorrência da atividade humana – não foi questionada pela comissão do IAC. Esse tem sido o argumento principal de Rajendra Pachauri para permanecer no cargo.
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